"Sobre essa questão de horizonte utópico, lembro da frase de um
amigo meu, o cineasta argentino Fernando Birri, dita quando estávamos em Cartagena das Índias, na universidade, conversando com estudantes. Um dos estudantes perguntou para o Fernando: para que serve a utopia?
amigo meu, o cineasta argentino Fernando Birri, dita quando estávamos em Cartagena das Índias, na universidade, conversando com estudantes. Um dos estudantes perguntou para o Fernando: para que serve a utopia?
Ele respondeu: “Eu me faço essa pergunta todos os dias. O que eu posso dizer é que, para mim, a utopia está no horizonte. Eu sei perfeitamente que nunca a alcançarei. Se eu caminho dois passos, ela se afasta dois passos. Se eu dou dez passos, ela fica dez passos mais distantes. Para que ela serve então? Para caminhar”.
Eu sempre achei que essa é a melhor resposta possível para explicar por que ainda existe gente que é capaz de viver além da infâmia, de não confundir o tempo presente com o destino.
Gente capaz de manter a certeza viva de que amanhã o mundo pode ser diferente do que é hoje. Para mim, transformar a utopia em ações concretas exige uma identidade indissolúvel entre os fins e os meios. O que é a utopia?
O fim, o objetivo final, aquilo que está além das visões.
Os meios têm que ter uma identidade inconfundível com os objetivos que a gente se propõe conquistar. A maneira de chegar até esses objetivos, passo a passo, consciência a consciência, casa a casa, precisa manter a identidade daquilo que você faz com aquilo que você quer fazer. Porque às vezes, em nome do realismo, o cinismo vira uma sorte de destino inaceitável. Eu sou condenado a aceitar a realidade porque não posso mudá-la. Não é assim. Não vemos a realidade como um destino.
Vemos a realidade como um desafio.
Ela está nos desafiando.
Agora, a definição de quais são os meios para
enfrentá-la é um ponto mais complicado.
Você pode cair na tentação de começar a trair demais os seus objetivos em nome de seus objetivos imediatos, perdendo de vista a sua própria imagem.
Você procura você no espelho e não percebe que não está lá."
(entrevista de Eduardo Galeano à Agência Carta Maior, por ocasião do V Fórum Social Mundial, acontecido ao final de janeiro de 2005, em Porto Alegre.)

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